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A mulher em mim pede passagem

  • Foto do escritor: Samya
    Samya
  • 9 de dez. de 2018
  • 5 min de leitura

Atualizado: 10 de dez. de 2018



Muita gente não sabe, mas a verdade, é que eu sou casada. Quer dizer, não sou casada no sentindo amoroso da coisa, do tipo, casada com uma mulher, que divide as contas comigo e com quem eu transo e para quem eu digo “Eu te amo” de vez em quando. Mas sou casada. Faz cinco anos que eu esbarrei com um certo rapaz, lá da Freguesia do Ó. Ele é uma bichona, uma vagabunda, como ele mesmo diz, e eu o amo. Eu acredito que as pessoas não aparecem na nossa vida por um acaso, e com ele não foi diferente. As coincidências só foram se acumulando ao longo dos anos. Nós dois nascemos em 1984, temos 34 anos, somos filhos do meio, temos famílias loucas e barulhentas, pais e mães que ao longo da vida tiveram atitudes extremamente semelhantes, temos funcionamentos parecidos em certas instâncias da vida, enfim. Tudo conspirou para que nos uníssemos. E é claro que tem dias que eu quero enfiar um murro na cara dele, e tenho certeza que a recíproca é verdadeira, mas apesar de tudo, ele é meu parceiro, meu amigo, meu irmão gêmeo.

Você tem uma pessoa? Eu tenho algumas.

Eu não sei vocês, mas eu sou fã de Grey’s Anatomy, e a Shonda Rhimes, que criou está serie maravilhosa, fala muito sobre sobre ter uma pessoa. Porque é diferente de família, é parecido mas não é a mesma coisa. A família você não escolhe, é um pacote que você recebe quando nasce e que você simplesmente aceita, porque é o seu pacote, cada um tem um. Agora as pessoas que você tem na sua vida, você escolhe. Essas são aquelas a quem você recorre nos momentos mais difíceis. Sabe quando no meio da noite você acorda chorando ou com medo dos fantasmas que você acredita que existam? Ou de repente aquele momento surreal que aconteceu com você, e de repente rola uma urgência em dividir aquilo porque você esta transbordando de felicidade? É para sua pessoa que você recorre. É para ela que você conta, é com ela que você ri, chora, fica com raiva e dança junto para esquecer os problemas (assista Meredith Grey e Cristina Yang em Grey’s Anatomy, e tudo ficará mais claro). Eu tenho algumas pessoas na minha vida, algumas estão na minha cidade natal, e me fazem uma falta tremenda, e as outras estão aqui em São Paulo. Não há nada mais importante na vida do que estar com essas pessoas, porque trabalho vem e vai, namoradas vem e vão, tudo se acaba, mas essas pessoas, estarão sempre lá. São elas que vão ouvir você reclamar por meses do mesmo problema, vão te mandar a merda por estar falando de novo sobre o mesmo assunto e não vão deixar de te amar por causa disso. E eu sei que a família normalmente tem essa função também, mas é diferente, muito diferente. Porque as pessoas que você escolhe, normalmente tem valores de vida parecidos com os seus, estão inseridos na mesma realidade, enquanto que a família via de regra é bem diferente. Eu amo a minha família, profundamente, cresci rodeada de primas, tias e tios, e nossa relação é maravilhosa, mas a minha realidade, meus objetivos de vida, o que eu acredito é tão diferente de tudo que eles pensam. E é uma sensação muito louca, porque estar com a minha família me leva para um lugar muito confortável de presença, onde está tudo certo, porque eu sou o que sou, eles sabem disso, e eu não preciso fazer absolutamente nada, só estar, ser. Está tudo certo, e no seu lugar, e isso acontece porque eu cresci com essas pessoas. Foram 34 anos de convivência. Mas de outro lado, tudo o que eu construí na minha vida desde que sai da faculdade, me mudei para São Paulo e comecei a investir na minha carreira de atriz, é tudo tão distante para eles, e não é porque eles não tentem entender ou fazer parte, mas é simplesmente porque eles de fato não fazem parte desse capitulo da minha vida, porque não é a realidade deles. E talvez esse lugar de conforto ao estar do lado deles, tenha mais a ver com a adolescente, e a criança dentro de mim, que sempre foi acolhida por eles, do que qualquer outra coisa. Mas ao mesmo tempo eu não sou mais essa criança/adolescente, sou uma mulher que tem uma vida e uma realidade muito distante da deles. Eu construí meu território existencial num lugar e numa realidade que eles não conhecem. E é muito estranho pensar nisso tudo. Saber que as suas escolhas e o que você quer para sua vida vão te levar cada vez mais para longe das pessoas com as quais você cresceu, mas a vida de fato nos distancia, porque é assim que funciona. E no meio do caminho encontramos com as nossas pessoas, que são aquelas que vão assumir a função de família para você. E talvez seja difícil e duro para algumas pessoas falar sobre isso, ou até mesmo entender, mas é natural do ser humano ter dificuldade com as realidades que nos são impostas, ter dificuldades com as mudanças, e não há nada que possamos fazer a respeito disso. Como diz a frase, que eu não faço a mínima idéia de quem é a autoria, ou de onde veio... “Aceita que dói menos”. Acho que a vida e os acontecimentos estão um pouco neste lugar. E honestamente, acho que aceitar isso e seguir em frente faz parte do processo de amadurecimento de todo o ser humano. E ao longo da vida a gente vai amadurecendo aqui e ali, cada acontecimento de permite um tipo diferente de amadurecimento, mas em essência, esse entendimento e esse rompimento é o que talvez te leve para um outro patamar de amadurecimento. A partir do momento que você abre mão desse conforto da criança/adolescente que mora em você, e rompe com isso, e não digo romper no sentido de parar de falar, brigar ou não ver nunca mais, porque o rompimento é interno, você abandona a criança e a adolescente dentro de você para dar espaço pra adulta que está ansiosa para emergir, e que esperou 34 anos pela chance de ter voz. A mulher em mim pede passagem, ela pega a minha criança no colo, conforta a minha adolescente e diz que está tudo bem, e que agora, ela vai assumir o controle. E para que isso aconteça de fato, e com força total, é preciso despedir-se dos velhos hábitos e funcionamentos. Só assim é que será possível construir outras relações, mais maduras e verdadeiras. Porque assim, o que se constrói é a relação de uma adulta com outro adulto. Para que esta família de quem a criança/adolescente se despede possa reconhecer a adulta, ela precisa nascer. E o que é mais interessante disso tudo é que na maioria das vezes nós não nos damos conta de que isso é necessário. Eu mesma, só estou entendendo isso agora, na medida em que escrevo este texto. Racionalmente eu já sabia disso tudo, e acho que os acontecimentos dos últimos meses estavam me preparando para este momento e esta compreensão.

O que eu vou fazer com esta ficha do tamanho de uma bigorna que acabou de cair na minha cabeça? Vou tomar um torsilax para não me dar enxaqueca e aceitar, porque vai doer menos.


| 09 de Dezembro de 2018|

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2 comentários


Samya
Samya
12 de dez. de 2018

Que Bonn que gostou do texto! Eu também às vezes me revolto com esse autor desconhecido! Mas a realidade é essa, ou a gente aceita, ou vai passar a vida dando marretada na cabeça.

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Davidd Brito
Davidd Brito
12 de dez. de 2018

Aceita que dói menos...

O autor da frase deve ter sido alguém que aceitou muita coisa durante a vida e doi se acostumando com a dor, na verdade dói bastante no início, mas a dor é para o crescimento para o amadurecimento e depois disso, sim, vai doer menos.

Ou será que eu ainda estou recusando, pensando que aceitei, fingindo que aceitei e, prolongando a dor ao invés de amenizar.

Ps: Momento de revolta com o autor da frase, o texto está ótimo ^^.

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Porque eu tive a ousadia de tentar!

"É preciso ter ainda o caos dentro de si para dar a luz a uma estrela dançarina" Friedrich Nietzsche

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