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Moça de preto

  • Foto do escritor: Samya
    Samya
  • 6 de dez. de 2018
  • 2 min de leitura

Parecia feita de ópio. O ambiente pulsava com a sua voz. Senti naquele momento falta de ar. A música cessara. Uma necessidade louca de abraçar, apertar aquela voz divina que se esvaia em dor em cima do palco. Uma dor extenuante ardia em meu peito. Cada nota me tocava. Não pude mais ouvir...

Deixei o palco e fui para a sala ao lado.

O cantar fazia emergir tudo o que lutara para abafar. Dor, penar, alegria, tesão, sarcasmo, indiferença.


Estrondo!



Era o corpo que se debatia, gritava pelos poros. Já não sabia mais porque lutava.

Era Inevitável, aconteceria... o bolo alimentar não digerido de angústias e mágoas, ódios, tesões e alegrias, todos embrenhados em um tecido de carne e sangue... em vias de cuspimento gritavam... Socorro!


O sangue jorrava pelos olhos da cantora. Um sangue transparente e salgado. Enquanto desmontava no chão, seu corpo se encolheu no canto da sala e tremeu. De dor e desapontamento com a vida, com os acontecimentos... não. A falta deles. Ela convulsionava no canto, enquanto ondas de dor atravessavam o seu corpo cortando-lhe a alma. Para expurgar o veneno da paralização, para expurgar o veneno, pra expurgar o veneno, ela repetia... Mas não sabia como. Como se livrar da impotência e seguir andando?! Nova onda de choro e tremor... Agora, embebidos de raiva, raiva de si mesma, raiva da falta de forças que a paralizavam cotidianamente.

Foi insuportável, e ela gritou, gritou até perder a voz. Continuo chorando baixinho, sentindo cada centímetro da dor que ela própria causará. Até que o sangue parou de jorrar. Enfim adormeceu. O dia seguinte, como todos os outros que se seguiam aos dias de expurgo e reconhecimento da dor, lhe apareceu peculiar, inebriante, contagiante. A cantora dançava em seu caminhar pelas ruas da cidade, apenas vivendo, existindo, sentindo as sensações do dia. O sol quente sob sua pele, que desejava desnudar-se das roupas que a sufocavam, a brisa fria de inverno que nunca chegava.

Fazia tempo que a dor não lhe tomava de assalto como na noite anterior. E dessa vez, foi pega de surpresa. Como poderia saber que ver aquela mulher cantar com tanto sofrimento lhe causaria tal inconstância? Fugir fora a única opção.

Ainda sentia embrulhos no estomago do choro convulsivo que a tomou, mas tudo parecia mais claro agora, mais intenso, como se por alguns momentos ela tivesse de fato sentido-se viva. Não se lembrava quando fora a ultima vez. No entanto, de que adiantava? De tempos em tempos, o horror se repetia, a dor lhe tomava a posse de tudo, e a sacudia chão adentro, até que exaurida se rendia e adormecia.

Mudanças. Era disso que precisava.

Era preciso encontrar o desejo novamente. A bomba que impulsiona estava desligada ou coisa do tipo, porque os últimos cinco anos não passaram de pura apatia.


| Escrito em três partes, anos atrás |

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