Malditas Portas
- Samya

- 12 de dez. de 2018
- 3 min de leitura
“Porta maldita! Porta com cara de lajota velha. Porta chata. Eu te odeio!”
É isso que Alfonsito diz no monólogo Bairro Caleidoscópio, de Carlos Gallegos, com direção de Marcella Piccin e atuação de Thiago Carreira. Esse personagem, enfurecido, lança toda sua raiva sobre a porta que o impede de sair de casa. É tudo culpa da porta, por isso ele fica trancafiado dentro do seu pequeno mundinho onde tudo está sob controle.
Há sempre um culpado não é mesmo? Sartre já havia muito sabiamente apontado em sua peça “O Inferno são os Outros”, o problema não está no “Eu” está no “outro”, seja ela a porta maldita de Alfonsito, seja a amiga que falou demais, a mãe, o periquito, o papagaio. Não adianta, você e eu, estaremos sempre buscando alguém para culpar. Porque é mais fácil não é? Mas aqui entramos num dilema... Um tempo atrás estava eu, conversando com uma grande amiga... Eu estava deprimida e inconformada com as coisas que estavam acontecendo na minha vida. Então muito segura de mim, eu disse a ela que estava estudando umas coisas sobre Lei da atração, que havia conversado com um Coach, e de como estava pirando nessa história toda de que se você acredita que pode, pode mesmo, e se acredita que não pode, então fodeu, e como tudo isso era uma tentativa de melhora, de superação dos meus problemas. E é muito louco tudo isso, porque essa coisa meio auto-ajuda, te leva para um lugar de meritocracia muito grande, foi o que ela começou a me lembrar, e eu no auge dos problemas nem sequer me dei conta. O que acontece é que você começa a achar que se sua vida está uma bosta a culpa é sua, e se está incrível, é mérito seu. O que nos devolve o tal dilema mencionado. Mas a verdade é que são duas coisas muito diferentes. Quando eu falo da porta, estou falando de algo mais íntimo e delicado. É claro que o sistema fodido em que vivemos, a situação política do país, a crise e etc, tudo isso influencia e tem deixado todo mundo tenso e a flor da pele nesses últimos meses. Mas não dá para acharmos que é só isso, essa minúcia da qual eu falo é o que nos permite o gás para virar o pé do frango. Porque além de tudo isso que acontece no mundo e no país, porque diabos é que nós criamos ainda mais 379 empecilhos para a nossa vida? Porque que a gente se boicota tanto? Porque não foi a porta que te impediu de sair de casa, foi você mesmo! Não foi o relacionamento que não deu certo, foi você que saiu correndo porque ficou com medo de se entregar. Não foi sua mãe que não acreditou no seu projeto que deu errado, foi você que não acreditou, ou que permitiu que o que sua mãe achava ou deixava de achar, fosse mais importante do que o seu projeto.
Faz sentido o que eu estou falando?! A gente passa uma vida reclamando das coisas que não deram certo por causa disso ou daquilo, mas a partir do momento que começamos a entender que na grande maioria das vezes, bastava se entregar, acreditar, voar, e simplesmente não deixar as caraminholas dos problemas e neuroses que criamos para nós mesmos, com o simples objetivo de foder com tudo, tomar conta... A partir do momento que entendemos isso, o vôo é involuntário e simplesmente acontece.
Mas é mais fácil falar do que fazer. Talvez tudo isso que eu falei você já saiba, mas a questão é saber como fazer isso não é? E eu acho sinceramente que há um caminho, que não é fácil, mas é possível. Não se trata de parar de se boicotar, mas sim, compreender, onde e como você se boicota, e pra que? Porque há sempre um “pra quê”. E perceba que não é um “porquê”, é diferente. Para quê você faz isso ou aquilo? Tudo tem uma função, tudo tem um ganho, do contrário nós não faríamos, e se você não entende/enxerga o ganho, e decide abandoná-lo, vai ficar eternamente se boicotando.
Então, por favor, vamos combinar que daqui em diante, nem eu nem você ficaremos enfurecidos diante das portas para as quais as chaves estão em nossas mãos? Vamos passar a olhar para a porta maldita com generosidade e desapego, entendendo que a sua função de proteção, carinho, segurança, ou seja lá o que for, não nos cabe mais? Porque é só assim que conseguimos nos libertar e brilhar. Parece piegas, e talvez seja, mas não ligo.
| 12 de Dezembro de 2018 |
*Para mais informações sobre o Monólogo "Bairro Caleidoscópio" acesse o Instagram @casadagioconda

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