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Anestesiada

  • Foto do escritor: Samya
    Samya
  • 4 de dez. de 2018
  • 3 min de leitura

Atualizado: 6 de dez. de 2018

Você me disse uma vez que tinha um funcionamento de desapego. E que quando você não queria mais alguma coisa ou situação, você simplesmente virava as costas e desapegava. E agora me pergunto... Será que você me apagou completamente da sua vida? Será que virou as costas e não vai olhar para trás? Será que todo aquele amor que a gente sentia, tudo aquilo que a gente viveu se apagou?

Eu sei, foi pouco tempo. Mas para mim me pareceu uma vida.

Ela estava anestesiada, conformada com as coisas do jeito que estavam. Decepções atrás de decepções, problemas atrás de problemas. Essa era a vida. Ela crescera numa realidade muito conturbada, uma realidade com frases por demais cruéis: “eles não gostam de você”, “você é muito inconveniente”, “você é a ovelha negra da família”, “você só me da dor de cabeça”, “Você perturba demais”, “isso nunca vai dar certo”, “isso você não pode”... Até que a última delas chegou antes da mudança para São Paulo – “tomara que dê tudo errado e você volte com o rabo entre as pernas”. Por muitos anos tudo isso foi uma verdade na minha vida, e em parte ainda é. De certa forma eu boicoto e prejudico oportunidades de trabalho e relacionamentos por não acreditar que mereço. E por alguma razão, quando conheci você achei que havia deixado isso no passado, que isso não me afetava mais.

Eu estava feliz, nós estávamos felizes, e de repente tudo se acabou. E por um tempo, eu me mantive firme, virei a chave, fui produzir... Mas então veio a calmaria, o tempo livre e tudo isso voltou com uma força tremenda. Todos os problemas que eu carrego comigo desde muito nova, todas as carências, todas as necessidades que nunca foram supridas – e que não serão supridas por ninguém, exceto por mim mesma – voltaram com uma força avassaladora. Eu me vi nesse último mês em um buraco existencial do qual estou começando a sair neste momento. Estou tentando fazer as pazes com o meu passado, com os meus pais.

E então você se pergunta: o que você tem a ver com isso? Absolutamente nada. Mas do mesmo jeito que os seus problemas transbordaram e me afetaram, os meus fizeram isso com você e te afastaram ainda mais. E por isso eu escrevo, para me desculpar.

Talvez, se eu não tivesse chorado nos teus braços naquele dia, naquela manhã, depois que você me contou tudo que estava acontecendo com você... Talvez, nada disso tivesse acontecido. Naquele momento o meu medo de perder o amor que você estava me dando foi maior do que qualquer outra coisa, eu fui egoísta. Não foi consciente, não foi de propósito, foi o que eu aprendi na vida. Eu havia depositado em você tudo, e quando você começou a se afastar eu senti como se estivesse sendo rasgada ao meio. Doeu muito. Mas não é culpa sua, é culpa minha. Eu me diminui, me dei menor importância. Sempre fiz isso, a vida inteira. Sempre coloquei o outro em primeiro lugar. E nos nossos primeiros meses, existia algo de diferente, éramos iguais, a entrega era igual. Mas naquele momento, parecia que tudo que eu achava que tinha deixado para trás voltou... e sorrateiramente foi tomando conta de mim.

Eu quero te pedir desculpas por tudo isso, por ter exigido de você algo que você não tinha pra me dar, e que não era a sua obrigação me dar. Eu depositei algo em você que deveria ter depositado em mim mesma. Me perdoa meu amor.

Iniciamos um movimento tóxico nas últimas semanas e eu quero interromper, porque existe muito amor nessa história. E eu digo nós... porque independente de qualquer coisa que eu tenha feito, nas relações há sempre ação e reação, algo só se dá porque o outro permite. Isso a gente construiu junta. As partes boas e as ruins.

Você não me respondeu, e o silencio diz tanta coisa e nada ao mesmo tempo. Tudo se transforma num emaranhado de caraminholas em minha cabeça até que aos poucos você começa a sumir. Sua imagem pouco a pouco vai ficando opaca e desfocada. E o todo aquele amor que a gente construiu se perdeu no vento.


| Outubro de 2018 |

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