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Vontade de Presença!

  • Foto do escritor: Samya
    Samya
  • 17 de dez. de 2018
  • 4 min de leitura

Três dias atrás eu me lembrei de você. Como eu não queria ter lembrado. Se dependesse do meu cérebro, manteria você guardada numa caixinha, fechada e escondida debaixo dos tapetes da minha mente. Mas ao que me parece, meu coração ainda é um tanto inexperiente e iludido, e o teimoso foi lá, abriu a caixinha e soltou você aqui dentro. As lembranças voltaram a galope e estão fazendo muito barulho por aqui. Ele insiste em fazer isso, parece uma briga de foices. Meu cérebro te esconde e meu coração teimoso vai lá e te acha. Parece criança brincando de pique. E assim assumo: tem sido difícil lidar com a sua ausência. Não que você seja perfeita ou que eu não consiga viver sem você. Muito pelo contrário, você tem muitos defeitos e eu passo muito bem obrigada sem você. Mas sabe o que é... Eu me acostumei com o seu “Bom dia, Baby”, com o seu corpo alto e esguio encaixado no meu, pequeno. Eu me acostumei com sua mão na minha cintura e a outra envolvendo meu pescoço. E acredite se quiser, agora sinto até a necessidade de fechar as cortinas da janela para dormir no escuro. Eu sou uma criatura de hábitos. Então, a verdade nua e crua é: estou com saudades.


Pablo Neruda, um autor que conheço bem pouco disse uma vez: “Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade: aquela que nunca amou.” Se como eu, você já amou, sabe exatamente do que eu estou falando. Saudade é uma sensação que queima no peito e às vezes é tão forte que te deixa sem ar. A maior dificuldade desse sentimento é que na maioria das vezes você não pode simplesmente estalar os dedos para que ele se vá. Porque quando o amor é grande, a saudade cresce exponencialmente na medida em que vocês se afastam. E por mais que existam períodos onde você nem lembra, tem dias que parece que o corpo ferve por dentro só de lembrar. E assim vem uma enxurrada de sensações e caraminholas na nossa cabeça. Porque acabou? Porque não deu certo? Será que eu deixei de fazer alguma coisa? Será que ela ficou com medo? E junto com isso vem ainda uma raiva gigantesca que te frita o cérebro, porque você super interpretou um post, ou porque acha que ela já esta apaixonada por outra pessoa, linda e feliz, enquanto você esta aqui sentindo saudades. Sentir saudades, nada mais é, do que a vontade da presença, e junto com essa vontade vem exatamente a sensação de impotência porque: um, não há nada que você possa fazer; dois, você não sabe o que se passa do lado de lá, se ela está bem, se ela está mal, se ela ainda lembra de você, se ela vai vir buscar as coisas dela algum dia, se ela vai devolver suas coisas, se ela está com vontade de contar as novidades para você, se ela dorme e acorda com você na cabeça. Nada disso é possível, porque a saudade é ímpar e completamente sua, e ela bate nos momentos mais inesperados. Quando você olha para a panela que ela comprou pra você, ou quando você abre seu email, e vê a foto dela lá, porque uns meses atrás ela usou seu computador e o login filha da puta ficou registrado, parece que é tudo de propósito, para que você tenha um constante lembrete de que não deu certo e acabou. Sentir a falta de alguém que ainda se ama é a pior sensação que se pode ter, e ao mesmo tempo é um presente da vida, porque significa que você amou muito, e foi muito amada, e a vida só faz sentido se você passa por essas experiências.


Eu sinto muita falta de muita coisa nela, mas acima de tudo, sinto falta de nossas conversas, porque a gente se divertia tanto. As coisas acontecem e imediatamente, me vem uma vontade de te ligar pra te contar. Esses dias eu quis te ligar só pra te convidar pra sair andando na chuva, me pareceu fazer sentido naquele momento. Quando a gente sente falta, os desejos e as idéias mais esdrúxulas vêm na nossa cabeça. A verdade é que nós tivemos um encontro de almas... Mas o universo gosta de testar a gente, dar umas porradas de vez em quando, para ver até onde a gente agüenta, e então, alguma coisa aconteceu no meio do caminho, que eu honestamente até hoje não entendi/digeri, e tudo se despedaçou diante de nós. E hoje a saudade é minha companheira, está entranhada em minha pele. E às vezes, ela só cresce de um lado, e assim, essa saudade só é saciada com o tempo. De novo, saudade é vontade de estar junto, é vontade da presença, e muito sabiamente minha mãe sempre dizia: “quando um não quer, dois não brigam.”


“Era uma vez uma menina, que porque encontrou uma mulher, se tornou mulher. Esta mulher por sua vez, porque nunca tinha encontrado uma mulher voltou a ser menina. A menina, que havia se tornado mulher, com medo voltou a ser menina. E as duas meninas/mulheres se perderam dentro de si mesmas, abrindo mão do amor que sentiam.” Epílogo do Livro não publicado de Samya Peruchi.


|17 de Dezembro de 2018|

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